Distinguem-se duas espécies de tolerância, a tolerância política, ou civil, e a tolerância teológica, ou religiosa. Podemos chamar a primeira de extrínseca, e a segunda, de intrínseca. A tolerância política é a liberdade ou a faculdade que o príncipe ou o Estado concede aos cidadãos para que eles professem a religião que preferirem. A tolerância religiosa é a afirmação expressa ou tácita da verdade de todas as religiões, de todas as seitas, ou seja, aquela que leva a considerar como igualmente boas e verdadeiras, e, consequentemente, igualmente salutares ao homem, todas as religiões e todas as seitas. Nenhuma religião ou seita pode, segundo esse princípio, rejeitar a religião ou a seita contrária como maculada por mentiras. Daí, consequentemente, nasce o que chamamos de indiferentismo por todas as religiões, como se todas pudessem ser boas, verdadeiras, divinas, e que seria válido, desta forma, professar e seguir qualquer uma. Não trataremos aqui da tolerância política, pois existem circunstâncias em que não somente ela é permitida, mas é até mesmo necessária.
Quanto à tolerância religiosa, provamos que ela é ímpia e absurda, 1. uma vez que ela torna a revelação completamente inútil. Ora, se todas as religiões, sejam cristãs, sejam anticristãs, são igualmente boas e salutares, por que Deus teria manifestado sua vontade aos homens? Por que teria ameaçado com suplícios aqueles que resistiriam à sua vontade? Tudo isso seria uma ilusão? Mas Deus não é como o homem, para que minta, nem filho de homem, para que mude: logo, tendo Ele dito, não o fará, ou tendo falado, não o cumprirá?1
Nós o provamos, 2. porque, neste caso, haveria duas ou várias verdades contraditórias; porém todo mundo percebe que isto é absurdo. Com efeito, a verdade é indivisível, ela é completamente simples; somente o erro e a mentira lhe são contrárias. A verdade exclui, necessariamente, o erro e a mentira, assim como a luz exclui as trevas; ela é incompatível com eles.
3. Dado que, neste caso, Deus patrocinaria igualmente a verdade e o erro, e amaria e salvaria igualmente aqueles que lhe obedeceriam e os que lhe resistiriam voluntariamente, e por erro pessoal, e que rejeitariam as verdades que Ele propõe à sua crença. Consequentemente, Deus seria indiferente à verdade e ao erro, e à virtude e ao vício, e à obediência e à revolta. Isso significaria destruir a noção de Deus e ressuscitar o deus de Epicuro.
4. Porque Jesus Cristo, tratando-se sobretudo das seitas cristãs, revelara todas as opiniões contraditórias que se encontram nestas seitas, contraditórias e inumeráveis, que se separaram não somente da Igreja Católica, mas que também se dividiram entre si. Consequentemente, Jesus Cristo teria revelado ao mesmo tempo que Ele é e não é Deus, ou, no mínimo, que Ele seria indiferente a que o adorem como Deus ou que o considerem apenas como uma simples criatura, etc.. E, ainda que Ele em pessoa tenha ensinado algo, pouco lhe importaria que cada um ensinasse e pensasse o contrário, e isso, não por ignorância, mas sim por uma perfídia voluntária e obstinada. Tudo o que acabamos de dizer, e muitas outras coisas que ainda poderíamos opor aos nossos adversários, prova que essa tolerância não somente é ímpia e falsa, e, consequentemente, injuriosa a Deus, mas ainda que ela é absurda, enquanto contrária à revelação e à reta razão em si.
É o que os protestantes praticamente têm vivido até os dias de hoje. Por isso todos estes sínodos ou estes diversos fragmentos ou seitas do protestantismo que se anatematizam mutualmente2. Eles têm se chamado reciprocamente de hereges e estranhos à salvação (e, pelo menos neste caso falariam de forma acertada e diriam a verdade, se não o fizessem com os outros). Outrossim, não citando apenas os sínodos antigos, foi realizado um deles na Irlanda, em 1828, onde os presbiterianos proscreveram os novos arianos e os unitários, o que, consequentemente, criou entre eles uma nova seita3. Os protestantes não pararam por aí, eles também perseguiram, como dignos de morte, aqueles que professavam sentimentos contrários aos de suas seitas. A história do protestantismo fornece inumeráveis exemplos de indivíduos que foram perseguidos, esquartejados, queimados vivos por tais motivos4. Ora, estou falando aqui apenas dos protestantes mortos por protestantes. Quanto aos católicos, todo mundo sabe que o protestantismo, sem a exceção de uma única seita, trava-lhes, desde a sua origem, uma guerra constante e atroz, que ainda ocorre em certos países onde eles reinam como mestres, e isto apesar do sistema de tolerância universal criado recentemente por eles mesmos, que devemos sempre interpretar de forma a excluir os católicos, que vários protestantes, como admitem, ainda odeiam e o demostram por fatos5.
Contudo, para que tudo isso? Por que este proselitismo zeloso em seu meio, estas missões, se todas as religiões são boas, se todas, pela mesma razão, são agradáveis a Deus, ou, no mínimo, se Deus é indiferente a todas estas profissões religiosas? Se, como dizem, todos podem se salvar na religião que professam, porque tantos esforços para expandir cada seita, e por que perseguem com violência aqueles que voltam para a Igreja Católica? Logo, quer queiram ou não, os protestantes demonstram, por suas palavras e atos, que, no mínimo, na prática, seu sentimento é completamente diferente, e que sua consciência se revolta e lhes diz que essa tolerância religiosa, que agora eles imaginam, é ímpia e absurda.
Isso posto, devemos concluir 1. que a tolerância religiosa universal é funesta a todas as religiões; pois ao supor todas como verdadeiras, ela declara, por isso mesmo, que elas são todas falsas ou, no mínimo, duvidosas.
Disso devemos concluir 2. que somente aqueles que não têm nem fé nem religião podem defender a tolerância religiosa. Tais são os ateus, os deístas, os protestantes, que, uma vez que não têm nenhum ponto fixo, buscam nessa persuasão uma tranquilidade e uma paz que não podem encontrar em nenhum outro lugar. Da mesma forma, são sobretudo os protestantes que têm proclamado essa tolerância, e eles o fazem desde que o racionalismo e a filosofia nova, que aniquilam completamente a revelação, penetraram em seu meio. Daí nasceu esta sociedade que tem tentado reconstituir, por assim dizer, as três principais igrejas dos primeiros reformadores, Lutero, Zwingle e Calvino.
Devemos concluir com isso 3. que a paz e a tranquilidade que os indiferentes ou os tolerantes perseguem não é a verdadeira paz do espírito, o verdadeiro descanso da alma, mas sim uma apatia e um sono que pouco difere da morte. Amam as trevas, não sentem repulsa pela morte e o aniquilamento; a tranquilidade da morte e do túmulo lhes agrada; essa doença do espírito e da alma se agrava, torna-se cada vez mais incurável à medida que o indivíduo se preocupa cada vez menos com ela, conhece-a cada vez menos, e conforme fica mais escondida. Ora, o que fazer com um homem que não quer ser curado, que não quer reconhecer que ele está doente, que se crê em perfeita saúde enquanto está prestes a morrer, e que se contenta em confessar que ele não é imortal? Pois suas feridas são incuráveis, para me servir das palavras do profeta Miqueias6.
Disso devemos concluir 4. que é sobretudo por isso que todos, sejam deístas, sejam sectários, têm tanto horror deste adágio universal dos católicos: Fora da Igreja não há salvação. Todos padecem num sono mortífero, que eles amam, e ficariam furiosos se lhes despertassem. Assim como aqueles que estão mais doentes de espírito do que de corpo se irritam contra o médico que os trata, da mesma forma os protestantes, que proclamam em uníssono a tolerância religiosa, se indignam contra os católicos e os perseguem porque eles não querem abraçar o seu mesmo sentimento. Contudo, não é por isso que devemos renunciar a esse dever da piedade. Pelo contrário, devemos ecoar a nossa voz como um trompete, porque essa voz, que a contragosto vem incomodá-los e preocupá-los, talvez possa lhes ser um remédio salutar. Para aqueles que trilham o caminho do erro, a dúvida e a agitação da consciência constituem geralmente o primeiro passo para a verdade. É extremamente lamentável que alguns escritores modernos, arrastados por não sei qual inútil e falso zelo de piedade, sobretudo nos países em que esse mal obteve maiores progressos, e, consequentemente, onde o remédio é mais necessário, raramente ousem defender esse dogma da nossa religião. Buscam até mesmo enfraquecê-lo, a fim de privá-lo de toda a sua força7. E esse método funesto não faz com esta atenuação gere alguma vantagem em relação aos protestantes: na realidade, ele trai a verdade, e coloca os católicos vacilantes à beira do abismo8.
OBJEÇÕES
I. Obj. Deus ama a diversidade de ritos e cerimônias em seu culto, assim como, em um jardim, os homens amam a variedade de flores e frutos, assim como, em suas residências reais, os príncipes amam a multidão de servos e oficiais, assim como, sob seu cetro, os soberanos amam ver submissos os habitantes de numerosas cidades e províncias. Logo:
Resp. Nego a premissa9 no sentido dos nossos adversários; pois como a verdade é única, da mesma forma a verdadeira religião é única; e a superstição, seja em que país for, lhe é contrária, assim como o erro o é à verdade. Consequentemente, Deus, que é a verdade, não pode considerar como agradável o erro e a mentira, tampouco a diversidade das religiões. A diversidade de frutos e flores em um jardim, de oficiais em um palácio, longe de constituir uma oposição qualquer, produzem, ao contrário, um conjunto admirável. A diversidade de povos submissos ao mesmo soberano pode lhe ser agradável, desde que essa diversidade possa se conciliar com o respeito. Contudo, do contrário, essa diversidade de respeito deixa de agradá-lo. Ora, a verdade e o erro, a superstição e a religião, não podem caminhar juntas, assim como não pode se conciliar o desprezo e o respeito, a obediência e uma revolta obstinada10.
II. Obj. 1. A paz social almeja que cada indivíduo siga a religião da sua pátria; 2. Ora, se não fosse assim, ele não obedeceria nem às leis do Estado nem às ordens do soberano;
Resp. 1. Podemos retrucar esse argumento contra os deístas e todos os primeiros hereges ou reformadores; a paz pública requer que ninguém aja ou publique qualquer livro contra a religião do seu país; logo, os deístas e os primeiros protestantes, que publicaram tantas obras contra a religião do seu país, foram sediciosos, e pecaram contra o próprio Deus. Resp. 2. Distingo11. Concedo12 que a paz pública almeja que cada um siga a religião do seu país, se ela for verdadeira, Nego13, se for falsa. Os homens jamais são obrigados a assentir à mentira, e os soberanos não têm nenhum direito de impor uma falsa religião, uma vez que sobretudo eles são obrigados a abraçar a verdadeira religião14. De resto, por mais que ninguém possa abraçar uma falsa religião, ainda que as leis humanas o ordenassem, e que elas o proibissem de professar a verdadeira religião, contudo, é necessário viver em paz e não perturbar a ordem; logo, devemos opor apenas uma simples resistência passiva, assim como prescreve a religião e como fizeram os primeiros cristãos15. Agindo assim, não perturbamos a tranquilidade pública, mesmo quando não observamos a religião do país.
Quanto à segunda dificuldade, D. C. que ele não obedece às leis do Estado porque ele não pode e não é obrigado, N. de outra forma. Tais leis são, com efeito, essencialmente nulas, pois contrárias a Deus. Somos obrigados a obedecer ao homem quando ele não exige nada contrário a Deus; porque mais vale obedecer a Deus do que aos homens16, todas as vezes que eles pedem algo que lhe é contrário.
3. Assim, a intolerância dos católicos gera guerras, revoluções, desastres públicos;
Quanto à terceira, D. Em último caso, admito que essas guerras, essas revoluções e esses desastres foram frutos da intolerância civil, porém nego que tenham nascido da intolerância religiosa. Se a forma de pensar dos nossos adversários provasse algo, ela estabeleceria que existem circunstâncias de tempo e de lugar que impõe aos soberanos a obrigação de tolerar diversas religiões, o que não negamos, ainda que as guerras e as sedições aludidas pelos nossos adversários surjam de uma outra fonte, distinta da religião, como demonstramos no lugar apropriado17.
4. Se não é permitido seguir a religião do seu país, se a religião cristã é a única no seio da qual é possível alcançar a salvação, aquele que nunca ouviu falar da fé e da revelação é, portanto, culpado de pecado, que o torna digno dos suplícios eternos18. E como isso é absurdo, 5. segue que aquele que professa uma religião falsa, mas que a crê verdadeira, está livre do pecado e é agradável a Deus da mesma forma que aquele que professa a verdadeira religião; pois Deus julga todos os homens segundo a intenção em virtude da qual eles agem. Logo, também se pode honrar Deus em todas as religiões, e por elas alcançar a salvação19.
Quanto à quarta, nego a consequência. Rousseau errou ao concluir que alguém é culpado porque se encontra privado da fé e da revelação da qual nunca ouviu falar. Ora, segundo o ensinamento da Igreja Católica, se um indivíduo ignora invencivelmente a verdadeira fé, ele não é culpado de falta alguma, e, consequentemente, não está exposto a nenhum castigo. Deus não nos obriga ao impossível. Ademais, os teólogos ensinam que a infidelidade negativa não é um pecado20.
Quanto à quinta, D. C. se ele estiver invencivelmente convencido de que ela é verdadeira, N. se não estiver invencivelmente convencido. O que nos leva a negar novamente a consequência de Bayle: Logo, é igualmente possível honrar Deus em todas as religiões. Ora, porque de outra forma, aqueles que empregam ritos obscenos, e que derramam o sangue humano para honrar as falsas divindades, prestariam a Deus um culto que lhe seria tão agradável quanto aqueles que lhe prestam o culto que lhe é legitimamente devido, o que, todavia, é tão medonho, que os próprios incrédulos se escandalizaram com isso.
III. Obj. 1. As pessoas geralmente parecem admitir que todas as religiões são verdadeiras, no sentido de que elas são como idiomas por meio dos quais a pobre criatura exprime a sua submissão, a sua gratidão e amor pelo mestre do Universo. Independente da sua ignorância, da grosseria dos seus costumes, dos erros que envolvem seu espírito, ela sempre direciona sua submissão a Deus. É sempre a este Deus soberano que ela se dirige, e é Ele quem a recebe, independente do nome pelo qual lha ofertam. Os povos bárbaros e selvagens reconhecem a ação de Deus no trovão, que para eles é a manifestação da sua ira e ameaças; para eles, as chuvas que fecundam os campos são a manifestação da sua amorosa bondade; sua providência se manifesta na febre que arruína as forças físicas, e que encontra seu contrapeso na casca de uma árvore que as restitui. Buscam este Deus, e imaginam tê-lo encontrado em suas cabanas ou na floresta vizinha. Frequentemente, pensam tê-lo encontrado em uma pedra disforme, no tronco de uma árvore, em um pássaro. Sem dúvida, são vítimas de um erro grosseiro. Todavia, ao dirigir suas orações a estes diversos objetos, seu pensamento se dirige ao ser invisível, ou ao ser cuja ação é invisível, que é mais poderoso que o homem, que recompensa e pune. E imploram a sua proteção. Contudo, não existe apenas esse ser no mundo. Tal é o sentimento de Sismondi, compartilhado por Benjamin Constant21, que se exprime assim: “Os diversos cultos não podem expressar senão o sentimento comum dos homens22.” Logo:
Resp. 1. D. C. se eles ignoram invencivelmente qual é o gênero de submissão que devem a Deus para honrá-lo, N. se Deus transmitiu aos homens a forma como Ele quer ser honrado, e que a conheçam. Seguramente, se Deus não tivesse transmitido ao homem como Ele gostaria de ser honrado, independente da forma como ele Lhe tivesse manifestado a sua veneração, conquanto essa forma não fosse contrária à reta razão, ele teria cumprido legitimamente o seu dever. Contudo, se o homem conhece como ele deve, após a própria prescrição de Deus, honrá-Lo, ele não pode Lhe prestar um culto de acordo com o seu capricho sem se tornar culpado de desobediência. Consequentemente, aqui já desmorona todo o arcabouço dos argumentos, ou melhor, a descrição poética do escritor de Genebra. Ora, o homem do campo e selvagem, que ele imagina buscando Deus em sua cabana ou na floresta, etc., é um ser puramente abstrato, por assim dizer, e é difícil, é até impossível que ele não possa perceber o seu erro, ou, no mínimo, que ele não seja por vezes esclarecido interiormente, se se adaptar aos costumes dos outros homens, e que ele não perceba que o Deus criador do Universo não é nem um tronco de árvore, nem uma pedra disforme; e se buscar Deus sinceramente, certamente Ele se lhe manifestará, esclarecê-lo-á, ao menos interiormente, e o impedirá de cair numa vergonhosa idolatria. É isso que deu origem a este adágio da escola: Deus não recusa a graça àquele que faz o que está ao seu alcance. Consequentemente, ou não há ignorância invencível, ou, no mínimo, ela não perdura. É por isso que o apóstolo São Paulo julgou diferentemente o culto idolátrico e aqueles que trocaram a glória devida apenas ao Deus incorruptível por imagens de homens corruptíveis, e figuras de pássaros, quadrúpedes e répteis23: logo, não basta dirigir interpretativamente ao Deus único e verdadeiro o culto que devemos Lhe prestar, como afirmam os nossos adversários, a menos que se viva em uma ignorância invencível, se é que, todavia, ela possa existir. Contudo, é preciso Lhe dirigir esse culto de forma expressa, ou formalmente, segundo o discurso da escola, diferentemente de como a vergonhosa idolatria, com o sangue de suas vítimas e seus ritos obscenos, se dirigiria a Deus, honrá-lo-ia e lhe seria agradável.
Resp. 2. D. C. Uma diversidade acidental e inocente, N. uma diversidade culpável e essencial. Todos esses diversos sistemas imaginados pelos protestantes evaporam assim que os despojamos do charme das palavras sob as quais os apresentam.
Instância 1. O cristão que conhece a sua própria falibilidade jamais obrigará os outros a compartilharem o seu modo de ver pela força, pois, ao agir assim, ele os exporia a castigos eternos; somente a contragosto ele os afastará da sua comunhão, que, em suas palavras, provavelmente é mais perfeita e mais exata que a dele, e que, consequentemente, talvez eles agradem mais a Jesus Cristo que ele próprio. Ele sempre respeitará o modo de ver dos seus irmãos, nunca os considerará como hereges, jamais os perseguirá com o seu ódio, jamais os rejeitará por causa da sua fé. Tal é o sentimento do ministro de Genebra, Chastel, que relata, além do mais, 2. que a igreja de Genebra declarou que todos aqueles que admitem Deus, Jesus Cristo e as Escrituras são verdadeiramente cristãos24; o que o leva a acrescentar que: 3. todos os reformados, independente de como interpretem as Escrituras, devem se considerar como irmãos, sem se anatematizar, tratar-se de cismáticos, discutir entre si; contudo, devem se amar e se respeitar como irmãos; 4. quanto aos católicos, se os rejeitamos da nossa comunhão, não o fazemos por causa dos seus ritos ou dos seus dogmas, mas sim, seja por causa da intolerância da sua Igreja, seja porque eles dependem da autoridade humana, etc.25. Logo:
Resp. 1. D. C. O cristão protestante, N. o cristão católico. O protestante não tem certamente o direito, se pretende ser coerente e fiel ao princípio da reforma, de acusar os outros de erro, de afastá-los, anatematizá-los, de exigir sua profissão de fé, etc., porque todos os protestantes gozam do mesmo direito, que eles sempre tiveram o poder de ousar tudo; ainda que os seus pais tenham agido de modo diferente, tenham violado esse direito – assim como o seu digno pai Calvino foi o pioneiro a violá-lo, ao condenar Servet à fogueira porque ele quis gozar deste mesmo direito, mesmo que admitisse Deus, Jesus Cristo e as Escrituras, e que, segundo a declaração da Igreja de Genebra, ele fora um verdadeiro cristão ; e que os demais reformados tenham seguido esse pernicioso exemplo até o momento em que o sistema protestante e o seu espírito foi reconhecido em sua plenitude. Devemos, consequentemente, felicitá-los por isso. Contudo, o católico que se apoia em uma autoridade infalível não pode nem participar destas miscelâneas, nem admitir estas alianças; elas são próprias do erro, e a partir do momento em que agisse assim, ele deixaria de ser católico.
Resp. 2. Ao se pronunciar dessa forma, a Igreja de Genebra fez uso do seu direito, e reformou os seus reformadores; talvez não esteja longe o dia em que essa igreja declarará que aqueles que rejeitam as Escrituras sejam cristãos, e vários reformados já o fizeram, como vimos no tópico apropriado. Os muçulmanos em si são verdadeiros cristãos, segundo a declaração da igreja de Genebra, pois admitem Deus, Jesus Cristo (como um grande profeta, como faz a igreja de Genebra), e admitem, ao menos em parte, as Escrituras.
Resp. 3. Concederemos tudo isso, mas também perguntaremos ao ministro Chastel se seus princípios irenênicos, pois se fantasiam com esse nome, podem se conciliar com o que Tertuliano dizia dos hereges da sua época: “Com todos tratam da paz, diz, pouco importa que pensem de forma diferente, desde que conspirem contra a verdade26; o cisma, eis a sua unidade27.” Tanto é verdade que os hereges ou os protestantes de todos os séculos sempre foram animados pelos mesmos sentimentos!
Instância 1. Contudo, a religião não é um dogma; ela consiste nas relações do homem com Deus, e não na noção que cada homem cria de Deus, ou nas palavras por meio das quais ele a exprime. 2. A religião é um afeto da alma, e não uma ciência; ela é fruto da expressão do amor28. Logo:
Resp. 1. D. C. De modo, todavia, que ela propõe os dogmas à nossa crença, N. de outra forma. A religião em si é uma virtude moral que leva o homem a prestar a Deus o culto que Lhe é devido; todavia, os dogmas que Deus revelou, e que Ele propôs a nossa crença também são objeto desse culto. Aquele que, com efeito, se recusa a crer em Deus, que revela e que propõe sua revelação pela Igreja, seguramente não honra Deus de um modo conveniente; e todas as relações do homem com Deus têm como base e fundamento sobretudo esta fé. É Deus quem se fez conhecido ao homem, e que, de modo geral, lhe ensinou as palavras por meio das quais ele exprime a noção que ele tem Dele.
Resp. 2. N. Com efeito, esse afeto é apenas o fruto, o efeito da religião, mas não a religião em si. Não devemos confundir as noções das coisas, de outra forma existiria apenas confusão. Assim, a expressão do amor é apenas o efeito que a religião inspira; todavia, não é dele que vem a religião. Ora, ela pode, falando de modo absoluto, existir sem ela.
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PERRONE, Padre Giovanni. Théologie dogmatique. Tradução de Robson Carvalho, Paris, Louis Vivès, 1871, Tomo I, p. 339-351.
1Nm 23, 19.
2Oferecemos várias provas disso anteriormente. Conferir Bossuet, c. 1.
3Revue catholique, 15 de fevereiro de 1830, Irlanda, sínodo de Ulster.
4Basta recordar os exemplos que citamos anteriormente.
5Os protestantes professam atualmente, como faziam antigamente, a intolerância contra a Igreja Católica. Eis o que lemos na obra intitulada: Lumières reconnues par les protestants, ou Récentes confessions faites en faveur de la vérité par ses adversaires, de Brenner, Bamberg, 1830, p. 44: “Ainda que os protestantes não concordem entre si sobre nenhum ponto, ainda assim todos têm a mesma opinião quanto à religião católica. Todos estão persuadidos de que lhes é obrigatório afastá-la e combatê-la. E, apesar do seu liberalismo, unem-se para persegui-la com mais obstinação e força”. Também é dito justificadamente, em um folheto literário publicado em Iena, em 1820, “que não é possível que um protestante sincero permaneça indiferente a que alguém seja infiel e deixe a sua profissão (ou seja, se faça católico); é preciso considerar esta corrupção moral com a indignação que a imoralidade produz”. E o doutor Krug diz, em sua obra intitulada Amélioration (reforma) de l’Église, ou Dangers du protestantisme, Leipsig, 1825: “Príncipes protestantes, exclama, protejam com seus braços poderosos a liberdade religiosa tão custosamente adquirida.” Eis ainda como o doutor Espe fala, em sua obra intitulada: Espoir que le protestantisme a de triompher dans la nouvelle lutte qu’il a engagée avec l’Eglise romaine, Leipsig, 1827: “Precisamos vencer, diz, que esta seja, meus amigos, a palavra de ordem comum de todos os membros da nossa igreja, se nossos adversários nos forçarem a descer na arena, seja por palavras, seja literalmente.” Ele conclui essa declamação ou diatribe jurando um ódio eterno ao ensino de Roma, e o confirma por estas palavras: “Amém”.
6Mq 1, 9.
7Oberthur se destaca entre os escritores deste gênero, em sua obra: Idée biblique de l’Eglise de Dieu, Solisbach, 1828. Nela, lemos, no tomo I, p. 1: “O que leva, hoje mais que outrora, a maioria dos cristãos a sentirem interiormente uma luta mais violenta entre o sentido da humanidade, que é muito mais sutil que outrora, e que perdoa os homens que não concordam com a teoria da religião e das diversas igrejas ou confissões, assim como as denominam, de todas as culpas que teriam podido contrair por isso. E a consciência, de um lado, que é aterrorizada por esse princípio contido em todos os símbolos de fé, de que fora da Igreja não há salvação”.
8É impressionados por esta razão e este temor que existem aqueles que mudam de religião em religião, como se muda de uma escola ou de uma academia para outra escola. Alguns católicos sem firmeza têm dado exemplos bem espantosos disso.
9Doravante: N.A.
10Cf. Segneri, l’Incrédule sans excuse, p. 2, último capítulo.
11Doravante: D.
12Doravante: C.
13Doravante: N.
14As Miscelâneas católicas de junho de 1826 fazem muito oportunamente esta observação. Nelas se constrói o quadro das religiões que Jenckins teve de praticar, ao seguir a religião do seu país (a província de York), que foi, por assim dizer, confundida com as leis do Estado. Jenckins nasceu em 1501, e morreu em 1670, tendo vivido 169 anos. Ele viveu, de 1501 a 1534, sob Henrique VII e Henrique VIII, 33 anos; foi católico de 1534 a 1547, sob esse mesmo Henrique VIII, ou seja, durante 13 anos; foi em parte católico e em parte anglicano de 1547 a 1553; viveu 6 anos sob Eduardo VI, de 1153 a 1558, e foi anglicano; foi católico durante 5 anos sob Maria; ainda foi anglicano de 1558 a 1649, sob Isabel, sob James I e Carlos I; foi anglicano de 1649 a 1653 (um terrível período de interregno); viveu, de 1653 a 1660, sob Cromwell, e foi presbiteriano durante esses 7 anos; enfim, viveu, de 1660 a 1670, sob Carlos II, e foi anglicano durante esses 10 anos. Ou seja, ele teve de mudar oito vezes de religião; e se isso não for brincar, em matéria de salvação, e zombar de Deus e dos homens, não sei então o que seria. Ora, tal seria o princípio de Rousseau.
15Os soldados cristãos deram exemplos maravilhosos desse tipo sob Juliano, o Apóstata. Ora, ainda que soubessem que deveriam ser vítimas de sua superstição se voltassem vencedores da Pérsia, não combateram com menos ardor contra os inimigos do império.
16Atos 5, 29.
17Part. 1, n. 367.
18Rousseau, Emile, tom. III.
19Bayle, Comm. Philos.
20Basta recordar do que dissemos mais acima da condenação das proposições de Baïus, e do que citamos de Santo Agostinho.
21Revue encyclopédique, Paris, 1826, jan. art. Opiniões religiosas.
22De la Religion, etc., l. I.
23Rm 1, 23.
24Obra citada, de l’Usage des confessions, p. 81 e 106.
25Ibid.
26Livro das Prescript., c. 41.
27Ibid., c. 42.
28Sismondi, l. c.