Queridos irmãos, neste complexo processo de conversão da nossa alma a Cristo, quem já leu as Três vias e as Três Conversões do padre Garrigou-Lagrange certamente já se considerou vivendo esta ou aquela fase apresentada pelo grande teólogo do século XX.
De forma bem suscinta, na primeira fase, ou na primeira conversão, percorremos a via purgativa, momento em que abandonamos o pecado mortal e passamos a viver a vida da graça. Seria o primeiro impulso de conversão, quando a força da nossa vontade é direcionada totalmente a conhecer, amar e servir a Deus em toda a nossa plenitude.
Essa primeira fase pode gerar um impacto diferente nas pessoas, conforme sua origem. Os católicos de berço, por exemplo, com exceção daqueles que deixaram sua fé esfriar, não a vivenciarão com tanto entusiasmo e arrebatamento quanto aqueles que advém de outras realidades – não cristãos, cristãos hereges ou cismáticos -, porque já se encontram, talvez, em outra via, num estado mais avançado de conversão.
É percorrendo essa via purgativa que sentimos de uma forma mais ardente o fluxo do Espírito Santo, a vontade desenfreada de falar de Deus, de participar de suas coisas. Todavia, é também o momento mais perigoso para as almas que não encontram uma boa instrução ou o apoio e a orientação de bons sacerdotes, porque ainda estamos “imaturos”.
Esse sentir o fluxo do Espírito Santo não está relacionado, devo alertar, ao sentimentalismo, ao choro, ao magnetismo pentecostal que impera hoje até dentro do meio católico. Tampouco advém de músicas melodiosas ou de pregações sensacionalistas. Trata-se de um encontro íntimo, pessoal, da nossa alma com a pessoa de Cristo, um encontro onde a razão aceita a realidade e constata um fato histórico, Cristo existe e vive. Ele é o criador da vida, junto de Deus Pai e do Espírito Santo. Ele é o mantenedor da existência.
Assim, descobrimos Cristo, Ele nos alcança com a Sua graça. Aceitamos a ação vivificante e santificadora do Espírito Santo em nossa alma. Buscamos o arrependimento dos pecados e a submissão da nossa carne à nossa vontade, que passa a ser orientada para a santificação.
Depois, vem a segunda conversão. Diria que essa fase constitui o grande drama da alma. É a fase em que aquele impulso inicial esfria, esvanece à medida que a luta contra o espírito, a carne e o mundo nos engole e a realidade espiritual nos parece cada vez mais distante. E ficamos perdidos numa noite escura, porque esperávamos efeitos especiais e música de fundo na nossa trajetória.
E assim muitos de nós estacionamos. E a tentação e os sofrimentos parecem ganhar novas formas e novas forças. É o momento em que a nossa alma mais sofre e, em muitos casos, retrocede, não porque o encontro íntimo tenha sido uma miragem, mas porque, nos dias de hoje, somos filhos que não têm onde pedir pão! Nossos padres sequer se preocupam mais com a conversão dos povos, porque foram alimentados com o mais puro humanismo e naturalismo. E como progrediremos no amor de Deus se não conhecemos realmente sua verdadeira face? E como conheceremos a sua verdadeira face se a maioria daqueles que receberam a missão de transmitir a verdade capitularam?
Pois bem! Minha herança familiar é católica. Não obstante, meus pais nunca tiraram proveito dos tesouros que tinham à sua disposição. Fiz meu catecismo já na “primavera conciliar” – afinal, sou um jovem senhor -, um catecismo que não deixou saudades, e cujas únicas memórias se resumem às gincanas de final de ano.
Vivi meu momento “ateu”, ainda que sempre tenha visto a Igreja como uma instituição imponente. Sua estética, suas tradições, sua arquitetura, sua música, sua simples presença no mundo depois de tantos anos sempre me fascinou e me gerou um sentimento de respeito. Meu ateísmo talvez tenha se devido mais à minha repulsa às influências protestantes que foram se formando ao meu redor do que à questão de Deus em si. Afinal, o Deus que me apresentavam, e ainda apresentam, é um tirano ignorante, ou um indulgente contraditório.
O fim da adolescência me trouxe às portas da primeira conversão. Que momento sublime! Mas também que momento confuso. A fome, a sede por aprender me fez consumir tudo o que via pela frente, e isso logo me tornou uma referência para os irmãos.
E quanto mais aprendia, mais conflitos surgiam diante de mim. A falta de seriedade, conhecimento e amor das pessoas pela religião me faziam pensar no empobrecimento de todo o aspecto missionário da Igreja. O indiferentismo e o subjetivismo gritante me colocavam em choque até mesmo com os sacerdotes. Não era a Igreja militante dos livros e dos catecismo que eu encontrava no dia a dia.
Isso me desanimou, por que senti uma ruptura brutal entre os esplendores da fé e a religião de hoje. O catolicismo que vivem não é o catolicismo. É como se alguém que nunca comeu uma torta de maçã tipicamente americana pegasse uma receita na internet, a replicasse e saísse dizendo que aquela torta feita por essa pessoa fosse igual à original, sem jamais ter sentido seu verdadeiro sabor, sua textura, seu odor. Era assim que me sentia. O que me era ofertado não condizia com o original dos “livros de receita”.
Todavia, nesse período, já tinha entrado na segunda fase de conversão. Esforçava-me muito para me manter em estado de graça, mas também me deixava corroer pelos conflitos da alma, pela inconstância da religião das conveniências e pelo sentimento de abandono de Deus. Encontrei a Tradição já durante minha fase de declínio, e mesmo ainda direcionando tudo o que me restava de energia, algo já se havia quebrado, e desisti, escolhi derrubar a barreira que orgulhosamente construí. E por mais que desejasse um gesto de apoio, um abraço amigo, uma mão que me puxasse, e por mais que esse gesto não tenha surgido, esse abraço não me tenha alcançado, no fim a culpa foi toda minha, porque, nesse processo todo, talvez tenha me sentido tão forte no início que acabei trocando Cristo por mim mesmo.
Por isso, depois de tudo que vivi, posso dizer, meus queridos irmãos, que o difícil não é superar a segunda conversão, o difícil é regredir ao estado inicial do processo, quando vivíamos como pagãos.
Quando caímos novamente, o desalento parece muitas vezes ser insuportável. Quando deixamos o pecado dominar novamente a nossa vida, parece que ele ganha uma força nova, parece que ele se torna mil vezes pior. A batalha se torna ainda mais obstinada e difícil. A sensação que se tem é que não iremos vencer, que já não vale a pena insistir, que estamos condenados.
A culpa ganha um peso maior. E vamos nos enfraquecendo ainda mais. E tudo parece que some da nossa mente. Tudo que aprendemos perde o sabor e o sentido e o efeito regenerador. A oração já não faz sentido e, dia após dia, desparece da nossa vida, e volta a escuridão.
Mas… não fomos criados para a morte. A morte física é apenas uma etapa para a vida eterna. E Deus não é o indiferente que quer a morte eterna de seus filhos. Assim, enquanto houver forças, enquanto houver um sopro de vida, devemos nos levantar e recomeçar num caminho muito mais árduo, mesmo que a vergonha de voltar ao início seja terrível. E sei que é assim, pois vivo isso diariamente.
Não se iludam! Não teremos uma déjà vu da primeira conversão. Aquele momento se foi. Já descobrimos que há um Deus, e que seu nome é Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida. Já descobrimos que ninguém irá ao Pai senão por Ele. Isso já está fixo em nossa memória.
Agora é meu momento, e talvez o teu, de rever tudo o que aprendi, com calma e com maior dedicação, para que possa trilhar o caminho de uma forma diferente, menos desapaixonada, definitiva, mesmo com dias ruins pela frente, de mãos dadas, ou carregado no colo pelo verdadeiro Cristo da verdadeira religião. E é por isso que nasceu este site/blog, onde compartilharei tudo o que tenho estudado para superar a noite escura da minha alma.
Enquanto houver vida, recomeçamos!