Não vivemos mais a nossa vida, revivemos a vida de Cristo, sua vida de inocência, sua vida de pureza, simplicidade e plena virtude. Ressuscitamos com Cristo, Nele vivemos, com Ele subimos ao céu, afim que a serpente não possa mais nos ferir o calcanhar.
Santo Ambrósio
O Evangelho meditado com os Padres: que promessas neste título!
Se temos a palavra de Deus nas Sagradas Escrituras, se as Sagradas Escrituras constituem, nas palavras de São Gregório Magno1, uma carta que Deus dirige aos homens;
Se, como diz São Paulo, toda Escritura divinamente inspirada é útil para instruir, repreender, corrigir e conduzir à justiça, afim que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa (2 Tm II, 16, 17);
Se ela é um verdadeiro alimento à alma faminta de Deus, se São Jerônimo pôde dizer2: “Uma vez que a carne do Salvador é um alimento para o homem, e seu sangue uma bebida, devemos considerar em nossos dias como nosso único bem tomar este alimento, não somente em seu sacramento, mas também nas Sagradas Escrituras”;
Se um Padre da Igreja3 pôde perguntar qual destas duas coisas seria a maior, a palavra de Deus ou a Eucaristia, e responder: Se desejais viver na verdade, deveis dizer que a palavra de Deus não é inferior à Eucaristia;
Se Santa Teresa4 pôde afirmar que os grandes males do povo cristão advém do fato de que ele não saboreia mais as Sagradas Escrituras, repetindo aqui uma palavra de São João Crisóstomo5;
Isso é verdade sobretudo do Evangelho: “Entre os testemunhos divinos compreendidos nas Sagradas Escrituras, diz Santo Agostinho6, o Evangelho ocupa o primeiro lugar. Tudo o que os Profetas anunciavam como tendo de acontecer, o Evangelho demonstra concretizado”.
“A palavra Evangelho quer dizer a boa nova. Toda boa nova poderia ser chamada desta forma: todavia, ela foi reservada ao anúncio da vinda do Salvador.7”
“E, com efeito, diz São João Crisóstomo8, não há aqui a boa nova por excelência? A remissão do castigo, o perdão dos pecados, a vinda da justiça, da santidade, da redenção, da herança celeste, o parentesco com o Filho de Deus, eis o que é anunciado, anunciado àqueles que estavam nas trevas, no mal, na inimizade de Deus. Deus vindo à terra, o homem elevado ao céu, o demônio confundido, a morte destruída, o fim do pecado e do erro, a união e a vida com os Anjos, a palavra de piedade que se espalha por toda parte, a vida sobrenatural que se estabelece por toda a terra, tal é a história que chamam de Evangelho. Tudo o que o homem chamava até então de bens, a riqueza, a glória, o poder, se parece doravante apenas com palavras vazias, e as promessas que nos são feitas pelos pescadores da Galileia nos surgem como os únicos bens verdadeiros. São as promessas mais sublimes e inabaláveis que existem. São as mais fáceis de se realizar: alcançá-las-emos não pelo nosso esforço, mas porque fomos amados por Deus.”
“É a boa nova, diz ainda Santo Agostinho9: porque enquanto as promessas do Antigo Testamento estavam ligadas aos bens temporais, as promessas do Novo dizem respeito à vida eterna.”
“O Evangelho é a própria boca de Cristo. Jesus Cristo agora está no Céu, e continua a falar na terra.10” “Ele está realmente conosco por meio do seu Evangelho.11” “As palavras mais preciosas que saíram da sua boca nos foram escritas e conservadas: no-las recitam, e irão recitá-las aos nossos descendentes até a consumação dos séculos… escutamos então o Salvador, como se o escutássemos aqui do nosso lado… Ele agora está no céu, mas Aquele que é a verdade também está conosco. O corpo em que ressuscitou está circunscrito num lugar, mas sua verdade está por toda parte. Assim, ouçamos a sua palavra, e a repitamos tanto quanto nos for dado compreendê-la.12”
Comparamos a palavra de Deus, as Escrituras inspiradas, à Eucaristia. É sobretudo a palavra de Cristo, relatada pelo Evangelho, que merece ser assim ponderada com o grande sacramento da vida. “Quando concede ao mundo a sua palavra vivificante, diz Tertuliano13, ele também a chama de sua carne.” “Esta palavra, pela qual o Filho de Deus alimenta as almas, é para ele, diz Orígenes14, como um corpo com o qual ele se reveste novamente.”
A palavra de Deus é uma luz. Tua palavra é uma luz para os meus passos, dizia o Salmista (Sl 118, 105): e o Evangelho é o esplendor, a verdadeira luz da vida sobrenatural. É para homenagear essa luz que, segundo São Jerônimo15, acendemos velas durante a leitura pública do Evangelho.
É essa luz que deve conduzir toda a vida do cristão. “Toda a vida de Cristo na terra, nesta luminosidade que assumiu por nós, diz Santo Agostinho16, deve ser a regra da nossa vida.” “Tudo o que se cumpriu na vida de Jesus Cristo, em sua paixão, em seu sepultamento, em sua ressurreição, em sua ascensão, em sua sessão à direita de Deus, foi feito para conferir, não mais apenas por palavras, mas por atos, a verdadeira forma à vida cristã.17”
Logo, nós, cristãos, agora temos de reviver a vida de Cristo. “Não vivemos mais a nossa vida, diz Santo Ambrósio18, revivemos a vida de Cristo, sua vida de inocência, sua vida de pureza, simplicidade e plena virtude. Ressuscitamos com Cristo, Nele vivemos, com Ele subimos ao céu, afim que a serpente não possa mais nos ferir o calcanhar.”
Jesus Cristo cumpriu todos os seus mistérios para constituir a nossa fé e a nossa vida. Logo, é preciso que eles estejam sempre presentes na nossa fé, e que entrem na nossa vida. É preciso vê-los como sempre vivos e atuantes. “O que incessantemente renova as inteligências é sempre novo, diz São Leão; e o que não cessa de dar frutos nunca envelhece.” “Este dia, dizia ainda sobre uma das festas de Nosso Senhor19, este dia não aconteceu de tal modo para que dele nos reste apenas uma lembrança: não, ele conserva toda a sua virtude.”
Para saborear o Evangelho, é preciso penetrar em sua medula oculta. “Os livros santos, diz São Jerônimo20, já possuem em sua crosta uma grande beleza.” Segundo o consenso universal, estes livros contém, mesmo considerados do ponto de vista humano, uma poesia que faz deles livros únicos. “Todavia, continua São Jerônimo, aquele que quer conhecer toda a sua doçura deve penetrar até em sua medula, e quebrar o invólucro para alcançá-la.”
Escrevendo a São Paulino para incitá-lo a consagrar o seu talento ao estudo e à exposição da poesia das Sagradas Escrituras, ele lhe dizia21: “Ah, se pudesse conduzir tal gênio, não mais aos montes de Aônia e ao Hélicon cantado pelos poetas, mas a Sião, ao Tabor, ao Sinai!… Se pudesse lhe fazer repetir o que aprendi, e por seu intermédio transmitir os mistérios dos Profetas, em nosso meio nasceria uma obra superior a tudo o que a Grécia produziu.”
Para penetrar até a medula do Evangelho e saborear a sua poesia, é preciso meditá-lo.
“Seria uma temeridade, diz ainda São Jerônimo22, pretender colher todos os frutos destas árvores cujas raízes estão no céu; mas por pouco que possamos obtê-los, eles nos serão de um preço infinito: serão frutos celestiais. Aprendamos na terra a ciência celeste.”
É preciso meditar o Evangelho para sentir a sua ação transformadora. “A verdadeira regra da piedade e da virtude, diz São Basílio23, está nas ações e nas palavras do Salvador. Ele próprio é a piedade e a virtude em pessoa. Ele assumiu a natureza humana para que, ao contemplá-Lo, pudéssemos imitar, cada um em nossa medida, nosso exemplar e eterno modelo.” Esse olhar fixo em nosso modelo eterno nos eleva até Ele. Ao contemplar a glória do Salvador, diz São Paulo, de glória em glória, somos transformados na mesma imagem, pela ação do Espírito de Deus (2 Cor III, 18).
Para que essa ação aconteça, é necessário saber se deter diante da figura de Cristo, não devemos ter pressa diante dela. “Temei, diz São Basílio24, esmaecer diante destes atos, ouvir estas palavras de forma deveras leviana: ao meditá-las, sabei mergulhar em sua profundidade; entrai em comunhão com estes mistérios que foram realizados por vós.”
“A doutrina evangélica é acessível aos simples, diz São Gregório25, e é por isso que proclamam-na à luz do dia; mas às inteligências mais sublimes que querem meditá-la no segredo, ela reserva algo capaz de fasciná-las.”
Assim, precisamos meditar o Evangelho. “Se não deseja outros livros, dizia São João Crisóstomo26, obtenha pelo menos o Novo Testamento, os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, neles busque seus mestres por toda a sua vida.”
O método para meditar o Evangelho de forma frutuosa não seria meditá-lo com os Padres?
Na história da Humanidade, em dado momento viveram certos homens que foram chamados de Pais da Igreja, ou simplesmente de Padres, grandes por sua santidade, inteligência, fé e zelo a serviço da verdade cristã. Tendo-a recebido dos seus predecessores com amor, eles receberam da Igreja, com o episcopado ou o sacerdócio, a missão de defendê-la e transmitir fielmente o seu depósito. Seus contemporâneos já os chamavam de nossos Pais em Deus, nossos Pais em Cristo, nossos Pais na fé. Nós, que ainda hoje vivemos dos seus ensinamentos, damos-lhes com frequência o nome de Padres.
Tanto quanto os Patriarcas e os Profetas da Lei antiga, da qual assumem o lugar na Lei nova, eles merecem os magníficos elogios que as Sagradas Escrituras lhes atribuem: “foram homens grandes em poder e dotados de prudência; as predições que anunciaram adquiriram-lhes a dignidade de profetas; na sua descendência permanecem os seus bens; é por causa deles que seus filhos permanecem para sempre” (Eclo 44, 3, 11, 13).
Os Padres da Igreja foram mentes grandiosas; quando buscamos na antiguidade certos homens a quem compará-los, precisamos recorrer aos maiores; e pelos resultados obtidos, os Padres superam muitos deles. É uma alegria poder estar em comunhão com tão grandes espíritos. Mas sua glória reside, sobretudo, em nos ter transmitido o depósito da Tradição. Antes de qualquer coisa, a doutrina cristã é uma tradição, que nos vem de Jesus Cristo, e que os Apóstolos e os seus sucessores foram encarregados de transmitir a todas as gerações; e, antes de tudo, os Padres tiveram de cumprir o seu papel de depositários. Quando lemos os seus escritos, somos surpreendidos pela similaridade de sua doutrina e, muito frequentemente, por suas expressões. Sem dúvida, alguns apresentaram suas teorias particulares, que rapidamente foram separadas da corrente da tradição; contudo, no conjunto, a base é comum a todos, e, com muita frequência, mesmo entre contemporâneos que não tiveram relação entre si, as expressões foram universais: extraiam-nas de um substrato comum.
E quando a tradição fora suficientemente explicada, os doutores seguintes apenas repetiram o que lhes tinha sido precedido. Embora os Padres do século IV se dediquem a algum mestre específico dos séculos anteriores, embora Santo Ambrósio estude preferencialmente Orígenes, embora Santo Agostinho tenha uma predileção por Tertuliano e São Cipriano, os doutores do século VI, e dos séculos seguintes, como Beda, Rábano Mauro, Teofilato, Eutímio apenas reproduzem a doutrina dos Padres dos primeiros séculos.
Outrossim, longe de se colocarem como inventores, os Padres se dedicam a se mostrar, antes de tudo, em comunhão com os séculos precedentes. “Tudo o que sei, dizia São Jerônimo27, não aprendi de mim mesmo, ou seja, do pior dos mestres, mas dos grandes homens da Igreja.”
“Eles conservaram, dizia Santo Agostinho28, o que encontraram na Igreja; ensinaram o que aprenderam; ofereceram aos seus sucessores o que receberam dos seus antecessores.”
“Tendo preenchido sua alma com a tradição apostólica e evangélica, diz São Cirilo de Alexandria29, se tornaram candeeiros que iluminam o mundo inteiro; possuíram a palavra de vida.” “Aquele que deseja se familiarizar com os Padres transbordará sua alma com a luz divina.”
Ao falar do modo de agir de um papa diante de uma questão séria30, São Vicente de Lérins31 apresenta-o “conforme as exigências da prudência e da piedade cristãs, unicamente preocupado em transmitir aos descendentes o depósito recebido dos Pais. Ora, acrescentava, é preciso seguir a religião para onde ela deseja nos conduzir, e não conduzi-la para onde gostaríamos de ir: este é o caráter próprio da modéstia e da seriedade cristãs, de não oferecer suas ideias pessoais, mas conservar o que foi recebido dos antepassados.”
“Atenham-se às linhas traçadas pelos santos Padres, escreviam os Padres do Concílio de Frankfurt32 aos bispos da Espanha. Basta segui-los e conservar com uma fé firme os seus sentimentos: pois estes homens, cujos livros se encheram de uma sabedoria inspirada pelo Espírito Santo, cuja vida é repleta de méritos e milagres, cujas almas agora reinam no céu, foram, no Senhor, os nossos mestres na fé e os nossos guias na vida.”
É a fidelidade a esse papel de depositários que confere aos Padres sua incomparável autoridade. “De seu acordo unânime, aliás, fica claro que foi transmitido pelos apóstolos segundo a fé católica. A opinião dos Padres também deve ser tida em alta consideração quando exercem seu ofício de doutores particulares, diz Leão XIII33, visto que não só o conhecimento das coisas reveladas e a compreensão de muitas coisas de grande utilidade na interpretação dos livros apostólicos os recomendam, mas certamente o próprio Deus que prodigalizou abundante auxílio com a sua luz sobre esses homens notáveis pela santidade de suas vidas e pelo zelo pela verdade.” “Ademais, diz Santo Agostinho, é neles que, depois dos Apóstolos, por seu poder de plantar, irrigar, edificar, alimentar, a Igreja reconhece os autores do seu crescimento.”
Ora, a Igreja e a sua doutrina recebem incessantemente novos incrementos. Os Padres que nos conservaram a verdade revelada foram os grandes instrumentos desse progresso. O progresso da doutrina é feito pela meditação, pela concretização dos ensinamentos revelados e pela ação do Espírito Santo nas almas. Quem estudou a doutrina revelada com tanto amor quanto os Padres? Quem a praticou com tanta fidelidade? Onde o Espírito Santo melhor exerceu sua ação? Se quisermos contemplar a verdade revelada em seu progresso e encontrá-la na juventude de suas origens, estudemos-na nos Padres. Em toda controvérsia dogmática, incitamos destemidamente ao estudo dos Padres. Quem poderia ignorar quanto esse estudo ajudou o grande movimento católico que ocorreu na Inglaterra no século XIX? A todos aqueles que querem conhecer a verdadeira doutrina católica, dizemos: estudem os Padres.
“Todo aquele que quer se tornar um teólogo hábil e um intérprete sólido, diz Bossuet, que leia e releia os Padres… Em um único livro dos Padres, encontrará amiúde mais princípios, mais desta seiva original do cristianismo do que em muitos volumes de intérpretes recentes… esses grandes homens se alimentaram deste fermento dos eleitos, desta pura substância da religião… Contiguamente e com maior abundância receberam da própria fonte; constantemente, o que deles desponta e que brota naturalmente da sua plenitude é mais nutritivo do que foi meditado posteriormente.”
O que Bossuet dizia em relação à teologia, não se deve dize-lo em relação à piedade? O estudo dos Padres não é um meio de conservar a piedade em sua verdade e amplitude?
Deus me guarde de caluniar a piedade moderna: ela tem exuberâncias legítimas e delicadezas primorosas. Contudo, uma vez que é permitido admirar a flor dos nossos jardins, uma vez que o desenvolvimento de suas pétalas e a riqueza de suas nuances falam da fecundidade da vida que nela habita, aquele que, sobre a montanha, encontra a flor em seu gênero primitivo, na geometria mais singela e melhor delineada de suas formas, contemplam-na numa beleza mais perfeita. “É nos Padres, diz Lamennais, que encontramos uma espécie de flor virginal do Cristianismo, que parece pertencer apenas aos primeiros séculos da religião.”
É impossível compreender as Sagradas Escrituras, essa fonte da nossa fé e da nossa ciência religiosa, sem os Padres. A ciência moderna pode nos fornecer algumas informações úteis com as suas investigações. Por sua ciência das línguas, dos costumes, por sua maior proximidade com as fontes da tradição, os Padres podem nos fornecer informações mais preciosas. Estudar a Bíblia com os Padres é o meio de entendê-la no sentido da Igreja.
Os fiéis compreenderam desde sempre a utilidade dos Padres na interpretação das Sagradas Escrituras. Depois dos Padres dos séculos VI e VII, cujos comentários são formados amiúde de centões tomados dos Padres mais antigos, e mesmo concorrentemente com seus comentários, foram formadas Correntes em que o Evangelho foi explicado, de ponta a ponta, apenas com seus textos. Sobre o Evangelho, temos numerosas correntes dos Padres gregos, e muitos fragmentos de obras perdidas nos foram conservadas graças a essas correntes.
No século XIII, a pedido do papa Urbano IV, Santo Tomás de Aquino, então no apogeu do seu gênio, compôs uma corrente sobre os quatro Evangelhos formada unicamente pelos textos dos Padres gregos e latinos, e que logo recebeu o nome de Corrente de ouro. Louis Veuillot afirmava aos noviços dominicanos que louvavam a sua Vida de Jesus Cristo que, para compô-la, ele não empregara outra obra senão a Catena aurea.
A Grande Vida de Jesus Cristo, de Ludolfo de Chartreux, não deve seu encanto e o grande sucesso que obteve aos pensamentos dos Padres que a permeiam?
O próprio Bossuet, em suas imortais Meditações sobre o Evangelho, frequentemente apenas traduz os Padres. Mas que tradutor! É a esse título de tradutor dos Padres, tanto quanto o de Padre da Igreja – atribuído por Labruyère -, que dele tomaremos numerosos empréstimos.
Assim, pensamos nas almas ciosas em meditar o Evangelho com os Padres, e quisemos ajudá-las a realizar o seu desejo. Tomando a Catena aurea como pilar central, verificamos os textos, revendo-os em seu contexto. Santo Tomás se desculpava pela brevidade em que os citara, brevidade que poderia torná-los obscuros; e, com efeito, eles prevalecem ao serem lidos no original.
Unindo os quatro Evangelistas numa única narração, pudemos evitar repetições que alongariam a obra do grande doutor.
Santo Tomás tinha à sua disposição comentários que não foram impressos: nossos leitores se beneficiarão das passagens citadas por ele. Dispomos de importantes obras dos Padres que São Tomás não possuía: uniremos esses tesouros àqueles que ele compilara. Para Santo Tomás, a tradição patrística se encerrava no século XI; contudo, nos séculos que seguiram, Rupert, São Pedro Damião, São Bernardo, Alberto Magno, o próprio Santo Tomás, São Boaventura, São Bernardino de Sena, também não representam a tradição, e não seria necessário reunir seus pensamentos sobre o Evangelho?
Basicamente quase todos os textos citados foram verificados: e as referências anotadas garantem a possibilidade de controlar sua exatidão: digo quase todos, porque tendo ocorrido a dispersão dos religiosos antes da conclusão definitiva do nosso trabalho, fomos privados dos livros que nos tinham servido para realizá-lo.
Por vezes, porém de forma rara, apresentamos o sentido no lugar das próprias palavras, dizendo com São Bernardo: “sempre que posso, aprecio empregar as palavras dos santos para que o valor do vaso torne ainda mais preciosas as coisas que nele são apresentadas”. E quando acrescentamos a essas palavras veneráveis algumas reflexões pessoais, ou citações de autores mais modernos, consideramos sempre preservar o sentido da tradição.
É por isso que apresento com confiança este livro, porque não vem de mim. A todos que o lerem, desejo todas as alegrias que experimentei na companhia destes santos Doutores. Como é suave ouvir homens como os nossos Pais na fé nos falar de Jesus Cristo. Ao receber inspirações realmente divinas durante a minha leitura, quantas vezes disse a Deus: Ó meu Deus, recompensai o doutor que nos trouxe tais luzes! Consideraria minha recompensa grandiosa se eventualmente semelhante oração brotasse do coração daqueles que lerem estes volumes.
“Ó Senhor meu Deus!, direi neste momento com Santo Agostinho, ouça a minha oração, e que a tua misericórdia atenda o meu desejo: porque não é apenas em meu benefício que meu coração se inflama, mas também pelos meus irmãos. E tu vês no meu coração que assim é. Ofereço-te eu em sacrifício o serviço do meu pensamento e da minha língua… que as tuas Sagradas Escrituras sejam para mim castas delícias! Que não me engane nelas, nem com elas engane os outros… Concede-nos, então, tempo para meditarmos nos segredos da tua Lei e não a feches aos que batem à sua porta. Nem em vão quiseste que se escrevessem os mistérios obscuros de tantas páginas, ou esses bosques não têm os seus cervos que neles se abrigam e recompõem, passeiam e se apascentam, se deleitam e ruminam. A tua voz é a minha alegria… Dá-me o que amo… Não abandones os teus dons, nem desprezes esta tua erva sequiosa. Que eu te confesse tudo o que encontrar nos teus Livros, e ouça a voz do teu louvor, e possa inebriar-me de ti e sondar as maravilhas da tua Lei.”
E ainda com o mesmo Santo Agostinho: “Ó Senhor meu Deus, minha única esperança, ouça-me para que eu procure sempre a Tua face com ardor. Dá-me forças para procurar a Ti, e a esperança de sempre e mais e mais Te encontrar… Diante de Ti estão o meu saber e a minha ignorância: onde abriste, recebe-me quando eu entrar. Onde me vedaste a entrada, abre quando eu bater. Em Ti quero pensar, a Ti conhecer e amar. Que tudo isso cresça em mim até que me transformes no fim…” Ó Senhor meu Deus, faças que acolham tudo o que de Ti tiver recebido. E se nestas páginas aparecer algo meu, que me perdoem, o Senhor e aqueles que te pertencem.
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THIRIET, O. P. L’Évangile médité avec les Pères. Tradução de Robson Carvalho. Paris, Victor Lecoffre, 1905, Tomo I, p. 10-17.
1 Gregório. Ep. I. 4. Ep. 40, a Theod.
2 Jerônimo In. Ecclesiast. Op. t. 2, p. 754.
3 In app. op. S. Agostinho, Serm. 300, n.2.
4 Ribera, cit. por Corn. a Lap.
5 Crisóstomo, hom. 9, in Ep. ad Colos. n. 1.
6 Agostinho. De Cons. Ev. l. 1, c. 2.
7 Ibid. C. Faust. l. 2, c. 2.
8 Crisóstomo, in Mateus, Hom. 1, n. 2.
9 Agostinho contra Fausto, l. 4, c. 2.
10 Ibid. Serm. 85, n. 1.
11 Ibid. Serm. 162, n. 10.
12 Ibid. Tr. 39, in João, n. 1.
13 Tertuliano, De Resurr. carn. n. 37.
14 Orígenes, Hom. 35, in Mateus.
15 Jerônimo c. Vigilant.
16 Agostinho, De ver. relig. c. 16.
17 Ibid. Enchirid. c. 53.
18 Ambrósio, De fug. Saec, c. 7, n. 41.
19 Leão, in Serm. C. De Epiph., c. 1.
20 Jerônimo. Ep. 49 ad Paulino.
21 Ibid.
22 Ibid. Ep. 50. Circ. On.
23 Basílio. Constit. monast. c. 1.
24 Ibid.
25 Gregório in. Job, c. 4.
26 Crisóstomo, Homil. 9 in Ep. ad Coloss. n. 1.
27 Jerônimo Ep. 108.
28 Agostinho, C. Julian. l. 2, c. 10, n. 34.
29 Cirilo in Dialog. de Trinit.
30 O Papa Estevão na questão do rebatismo.
31 Vicente Lérins, Commonit., c. 9.
32 Concílio de Frankfurt, Ep. Sinod. ad. in. Labbe, l. 7, 1016.
33 Leão XIII, Encíclica Providentissimus.